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REVELAÇÃO

Não busco nova odisséia. Uma caminhada, talvez. Quando menos, limpidez. Ser Chaplin fazendo Maquiavel. Somando na aquinhoada, Subjetivando a devassidão, Reinvento anulada utopia, Inviabilizando a devastação. Fiz-me devasso na incontinência. Sendo um rosto que se contingencia, Para sarcásticos me servi de pasto, Inda que, digo, de glórias me afasto. Em cada prato, uma idiossincrasia. Em cada fato, muito novo se faria. Em todo o caso, me assombraria Esse notável amodernado mundo. .

O pedinte

. - Ei, cara! Você me pediu esmola há pouco, na porta do banco. Tá aqui, bebendo cerveja numa boa - Eu?! Assim o senhor me ofende, professor. Por favor. - Como não?! Me lembro bem da sua cara, rapaz. Você é um falso pedinte, fingindo necessidade. E eu, bobo, coração mole ... você devia ser preso, safado. - Doutor, o senhor está me insultando. - Então, o que você me diz, canalha? O-que-vo-cê-me-diz? - Procure entender, autoridade. Eu sou ator. O senhor já viu o Herrison Ford... o senhor sabe quem é ... o Indiana Jones. O senhor acha que ele é arqueólogo? Ele é ator, excelência, e ganha milhões. De dólares, majestade ... fingindo. Eu finjo ser mendigo ... só isso. Não tenho direito a cachê, nem tenho produtor, diretor, essas coisas - ainda. Recebo a bilheteria diretamente. Sabe como é. Assobio e chupo cana. - Mas o Indiana Jones é do cinema. E você, seu pedinte de araque. - Sou ator de rua, doutor. Mambembe. - Bonito, rapaz ... você me enganou ... é isso. - Sou razoável, meu rei. Bonito ...

BRASÍLIA x PARIS

Comparar cidades nem sempre é pouco auspicioso. Cada metrópole, cidade ou lugarejo tem características peculiares, é verdade. Mas fiquei orgulhoso, como brasiliense de coração, ao ouvir uma comparação, dias atrás. Numa noite de autógrafos no espaço Assis Chateaubriand, no Correio Braziliense, falávamos sobre o aumento do número de salas de espetáculo teatral e de muitos outros espaços destinados à arte, à cultura e ao entretenimento. “Brasília está se tornando uma nova Paris”, disse-me o meu amigo Heitor (o craque do teatro do improviso. Não, não ... do imprevisto). Pensei nisso. Paris é uma cidade luz num amplíssimo sentido, mas o é principalmente no sentido cultural. Brasília, capital do terceiro milênio, merece a comparação e, nisso, há um importante pormenor: Brasília é linda, fácil e acessível, com seu traçado urbanístico magistral e incomparável. E ha muitos espaços atualmente mal utilizados – característica da maturidade – quando a cidade alcança seus 50 bem vividos anos. A no...

INTERPOETAR

. Minha língua rala a roçar Tua língua rica e densa. Corações a arquejar Enricam nossa mente sana. Estamos nós nos nus Risos desavergonhados Sob (des)preconceituosa pele Em rima nossa vida pulsa. Versejando convalescemos. O verso do verso de noss’alma É termos essa outra ala. Bradamos por poético orgasmo Em cada verbo, em cada frase, Ou quadra, de amor impregnada. .

IMAGEM

. Visível, real, na multidão o vulto. Negros caracóis toldando o escopo, Encobrem o derredor dos ombros. Fito-o, o sobrolho me contrai, Focando em zoom a fugidia imagem. Esgueiro entre os transeuntes. Nem sons, nem cores. Arrepio, adrenalina corre, E a presa sente-se caçada Relaxo a gozar o lindo instante. Tentando achar perdida compostura, Ensaio dizer-lhe umas frases doces Mas quando faço pose de poeta, Se distancia num mover discreto, Deixando gosto estranho de até nunca. Tempo depois, desiludido aguço o olfato, No ar ainda paira o cheiro dela. Esse maluco desencontro mágico. .

MENTE

Dispersa e ruidosa de dia, A mente é como um mercado. Deserta, silencia e se aquieta, Assim que o sol é guardado.